AMANDA MASQUE

Eu não sou Amanda Masque.

Ela é um personagem que criei para representar a mulher idealizada pelo homem.

Faço deste blog o canal para todas as mulheres que se defrontarão, cedo ou tarde, com as Amandas - imagens projetadas de perfeição incrustada na mente daqueles que amam.

Sendo a recíproca verdadeira, também para aquelas que se nutrem de um ideal masculino irreal.

E para os homens que nos visitam aqui, um buraco na fechadura para ver nossas Amandas despindo a roupa da alma.

Faço-me dessas mulheres, uma mera porta-voz e, deste blog, um meio para incentivá-las a colocar a sua ¨Amanda¨ para fora!

Uma Amanda plena, não aquela idealizada pelo outro, mas a melhor mulher que cada uma de nós pode ser em toda a manifestação do feminino - nas formas, nas artes, no amor.

sábado, 27 de março de 2010

Contribuições Anônimas ao Blog 1 - Encontros e Desencontros

Machos e fêmeas são espécies distintas, inconciliáveis. Todas as imagens de uma união encantada, eterna ou bem acabada são puro veneno - anestesiam o corpo, calam o barulho da vida, travam o desejo. Este inconciliável é tenso, e esta tensão é tesuda. Tesão pelo mistério do outro, que é também tesão de ser desejado por este outro, contaminado por aquilo que se esconde em seu mistério e arrancado para longe de si mesmo.


O charme de um corpo vem de sua nudez - pode estar mais nu do que simplesmente nu. Não a nudez que o olho vê, mas aquela insensível, mais sutil e mais bruta, que só o corpo conhece. É nesta nudez que o corpo é atingido pelo outro e se recria a cada encontro. E quando isto não acontece, é porque o encontro não aconteceu de verdade.


Estamos passando por um momento delicado, como toda transição. Os modos como macho e fêmea se apresentam, se seduzem, se tocam, não fazem mais sentido: a vida mudou muito, e com isso mudou por completo o que sente um corpo, o que o atrai, como atrai. Macho e fêmea estão sendo vividos no corpo de um outro jeito, cuja linguagem apenas começa a se esboçar. Isto tem deixado homens e mulheres desorientados e sozinhos.


A irreversível autonomia conquistada pela mulher transformou também irreversivelmente sua fêmea. No entanto, esta fêmea continua se apresentando com um corpo de outro tempo: da boazinha do lar à boazuda da rua, sempre variações em torno de uma figura de mulher inteiramente dependente do homem e cujo desejo é todo voltado para ele. Esse padrão de corpo, em si mesmo, não é bom nem ruim: provavelmente foi bom para certo tipo de mundo que ainda funciona para alguns. Ruim é insistir numa linguagem quando ela não faz mais sentido, pois quem sofre com isso é a fêmea real que emudece e sufoca.


Também para o homem, a coisa não anda fácil.


Diante desta mulher transformada que ainda gagueja uma nova linguagem de fêmea, ele não se sente verdadeiramente convocado como o macho. Mantém-se então, como ela, preso a um corpo de outro tempo, habituando a reconhecer-se como macho através do desejo da fêmea exclusivamente investindo nele. No olhar da mulher autonomizada que deseja o macho, mas também a criação e a vida pública, o homem não encontra a prova de sua virilidade, e então se estranha, se aprova e se fragiliza.


Machos e fêmeas estão traumatizados. E com isso as relações entre homens e mulheres. Ninguém está livre deste trauma. O mais comum é tentar negar a intensidade das mudanças que o corpo está vivendo. As mulheres, para expressarem sua fêmea, quando não regridem às figuras femininas disponíveis, apelam para as figuras do homem e se masculinizam, como se vida pública não pudesse ser vivida num corpo de fêmea. Ou então desistem dos homens. Ou até do sexo. Os homens, mesmo os de alma requintada, oscilam entre buscar mulheres que ainda funcionam no antigo regime e/ou sair desesperadamente à cata de fêmeas, uma após outra, onde esperam poder reconhecer-se como machos e assim, quem sabe, sair da insegurança.


Há também, e cada vez mais, os que desistam das mulheres. E até do sexo. Em qualquer uma destas ilusórias saídas, paga-se um preço alto a troco de nada, pois fica tudo na mesma e todo mundo continua perdido. Superar o trauma que estamos vivendo passa antes de mais nada por admiti-lo. Não com a esperança de final bem editado, de uma união sem tensões. Chega de drama: é da tensão deste encontro desencontrado entre macho e fêmea que nasce o desejo. Admitir o trauma passa por se dispor a ouvir no corpo esta nova fêmea e este novo macho que querem achar um jeito de estar junto, e sabem o quanto isto é essencial. Passa também por inventar linguagens para encarar esse macho, essa fêmea, seu desejo - tão variados são os corpos e seus encontros.

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